Em homenagem às 272 vítimas fatais da tragédia-crime, bandeira do congado mineiro é entregue à luta dos familiares

Pelas Guardas de Moçambique, grupos afro-religiosos, item cultural foi entregue à luta dos familiares das vítimas da tragédia-crime da Vale no ato dos 4 anos e 10 meses do rompimento da barragem

No dia 25 de novembro de 2023, dia em que se completou 4 anos e 10 meses da tragédia-
crime da Vale em Brumadinho, a luta dos familiares das vítimas ganhou uma forte aliada:
uma bandeira, símbolo de proteção, confeccionada pelas Guardas de Moçambique. A
entrega foi feita durante o ato por justiça, encontro de Tiago Silva, Maria Bueno e Nathália
Araújo, três vítimas ainda não localizadas, memória, direito dos familiares e não repetição
do crime, que ceifou 272 vidas.

Realizado mensalmente, em todos os dias 25, o ato contou com a participação das Guardas
de Moçambique, grupos afro-religiosos do tradicional congado mineiro, e destacou a
importância das lutas.

“Sentimos na alma e na pele o que a falta de amor ao próximo e a falta de empatia podem
fazer. Sangramos no coração com a crueldade e a soberba daqueles que podiam ter salvo
vidas, mas simplesmente deixaram morrer 272 pessoas. Estamos em todos os lugares onde
há opressão, injustiça, preconceito e desrespeito. A AVABRUM luta também por garantias
de direitos, que remete a ter vida com dignidade”, disse a diretora da associação, Kenya
Lamounier, que perdeu o marido, Adriano Lamounier, na tragédia-crime da Vale.

Na imagem, representantes das Guardas de Moçambique, do tradicional congado mineiro, durante a entrega da bandeira para AVABRUM, no ato de 4 anos e 10 meses do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho – Foto: Moises Silva.

Na solenidade, além dos batuques e cantos com as Guardas de Moçambique, houve
momentos de fé. Além disso, foi feita a chamada dos nomes das 272 vítimas da tragédia, e
às 12h28, horário que a barragem rompeu no dia 25 de janeiro de 2019, os familiares deram
as mãos e fizeram um minuto de silêncio. Ao som dos tambores, foi realizada a soltura de
272 balões – 269 brancos, representando as vítimas encontradas, e 3 pretos, simbolizando
os não localizados.

Perto do encerramento do ato, Kenya Lamounier clamou por justiça, e pediu à Vale respeito
e dignidade.

“Por favor, respeite os nossos, seja íntegra, assuma suas responsabilidades enquanto
empresa, reconheça seu papel nesse crime, deixe que a justiça caminhe, não busque fazer
dessas mortes um mero acidente da natureza. Todos nós sabemos que não foi acidente
Vale assassina. Antes de falar em reparação, deveria começar por reconhecer sua culpa, mostrar a sua cara, deixar os culpados assumir os erros e, como qualquer mortal, cumprir a
penalidade prevista pelas escolhas que fizeram. Isso chama hombridade, caráter. Estamos
fartos de tanta desconsideração, de falta de dignidade de uma empresa que prega a vida
em primeiro lugar”, disse.

Entrega da Bandeira

Confeccionada no dia 19 de novembro pelas Guardas de Moçambique, através do projeto
Legado de Brumadinho*, juntamente com representantes dos familiares, a bandeira do
tradicional congado mineiro foi entregue oficialmente aos familiares, no final da cerimônia,
como símbolo de proteção à luta da associação e uma homenagem às 272 joias, como as
vítimas fatais do rompimento são chamadas pelos familiares. São 272 estrelas de fuxico,
sendo que 269 foram colocadas em torno da bandeira e 3 grandes estrelas vermelhas
foram postas em destaque para representar os não localizados.

Integrante da Guarda de Moçambique, Aldo César falou da importância do item cultural.
“Dentro da tradição do congado, as bandeiras têm a função de abrir os caminhos, identificar
os grupos, dar essa sensação de pertencimento. Além disso, ela carrega nossa
ancestralidade”, afirmou.

Aldo também destacou o sentimento das Guardas em participar da ação. “Para nós, é muito
importante ser parte desse ato. Nós também fomos afetados diretamente por esta tragédia.
Somos uma família que, há muitos e muitos anos, vem fazendo movimento cultural e de
tradição. E parte dessas joias que se foram, algum dia, já esteve presente conosco”, disse.

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