‘Eles seguem vivos em nós e em nossas ações’

Em 25 de janeiro de 2023, dia em que se completou 4 anos do rompimento da Mina Córrego do Feijão, da Vale, matando 272 pessoas, AVABRUM realiza ato, reafirma união dos familiares e autoridades prometem justiça

Com muita emoção, luta e sentimento de esperança, a AVABRUM (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão) realizou o ato que marca o 4º ano do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho.  Além de familiares das joias, como são carinhosamente chamadas as 272 vítimas fatais, o ato reuniu moradores de várias regiões, representantes de organizações sociais, autoridades e sociedade civil. 

Fotos: Washington Alves

Vindos em romaria desde a Matriz São Sebastião, os presentes no evento não seguraram lágrimas e desabafos. “Nós aprendemos a transformar nosso luto em dor. São 1.460 dias sem justiça, ninguém preso e nenhuma empresa responsabilizada. Porém, guardamos a esperança de que sejam punidas e que a justiça seja feita. Temos a esperança também para que as três joias – a Maria de Lurdes, a Nathália Porto e o Tiago Tadeu – sejam encontradas e levem o alento às suas famílias. Estamos aqui por eles e por todas as nossas joias”, afirmou a presidente da AVABRUM, Alexandra Andrade.

Desejo de celeridade na ação penal

Andresa Andresa Rodrigues, vice-presidente da AVABRUM, reforçou o sentimento de união dos familiares em busca de justiça e celeridade no processo penal. “Eles seguem vivos em nós e em nossas ações”, afirmou, reforçando o desejo dos familiares de que o trâmite da ação penal que pode responsabilizar os culpados pelo rompimento da barragem não tenha mais adiamentos, como ocorre desde 2021. “A injustiça torna o crime recorrente e nos aprisiona no dia 25 de janeiro de 2019, na lama de sangue da Vale”, afirmou.

Nesta terça-feira (24/01), a Justiça Federal acolheu a denúncia do Ministério Público Federal e transformou em ré as empresas Vale e Tüv Süd e mais 16 pessoas, na véspera da prescrição de crimes ambientais. A ação criminal começou a tramitar na Justiça Estadual de Minas Gerais em fevereiro de 2020, mas um ano depois, numa manobra jurídica de dois réus, entre eles o ex-presidente da Vale, Fábio Schvartsman, um impasse foi criado sobre a instância correta de julgamento. Apenas em dezembro passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a Justiça Federal era a jurisdição responsável por julgar a ação penal.

Ministro vai a ato pela 1ª vez e promete proteção às pessoas

Pela primeira vez, o ato organizado pela AVABRUM mensalmente recebeu um ministro de Estado. Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, prometeu apoio aos familiares e uma Política Mineral Nacional voltada à proteção das pessoas. 

“Eu sou de Minas Gerais. O Estado de Minas estará na direção da Política Mineral Nacional para que nós possamos proteger as pessoas. Esse é o nosso compromisso: trabalhar com cada um de vocês”, disse, acrescentando que vai receber a AVABRUM em Brasília. “A palavra reparação é inadequada, pois não há reparação para o que aconteceu em Brumadinho e Mariana. O que há é a minimização dessa gravidade. Por isso, contem conosco na prática. A AVABRUM será recebida no Ministério de Minas e Energia, em Brasília, para trabalharmos juntos com os movimentos e com a sociedade, para fazer justiça com todos”, garantiu.

Marina Silva manda carta de solidariedade

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, enviou uma carta que foi lida no ato. “Hoje é dia de reunir, em manifestações públicas, toda a solidariedade às vítimas da catástrofe socioambiental em Brumadinho e Mariana. Estive em Brumadinho, emocionei-me com a dor e o clamor de seu povo por justiça. Mas vi algo mais, que serve de lição para todos nós: o material duro da indignação sendo usado para construir esperança”, escreveu para os familiares. 

Para Marina,  há um passivo a resgatar. “Um histórico de injustiças precisa ser superado para que possamos virar a página e colocar o povo brasileiro – em sua rica e maravilhosa diversidade – no centro do poder, como deve ser na democracia. Todos precisamos saber que não é possível conviver com a impunidade. Que possamos renascer de Mariana e Brumadinho”.

Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, Jarbas Soares Júnior, procurador-geral de Justiça de Minas, e o deputado federal Rogério Correia

Procurador afirma que trabalha por justiça

Jarbas Soares Júnior, procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, disse ter feito amigos verdadeiros em Brumadinho. “Trabalhamos para que se faça justiça, que se condene quem tiver que ser condenado, e que seja um julgamento justo, principalmente para aqueles que perderam a vida. A sociedade brasileira precisa ter uma resposta clara e definitiva sobre essa decisão. Podem ter certeza que o Ministério Público estava aqui no dia do rompimento da barragem, continuamos juntos e continuaremos sempre, pois todos os anos estaremos aqui no dia 25 de janeiro, às 12h28, para não esquecermos os fatos que aconteceram”, menciona.

Emoção marcou o ato

O ato dos quatro anos também teve muita emoção, com música, momento de oração feito por padre e pastor da igreja evangélica, minuto de silêncio respeitado e também a tradicional chamada dos 272 nomes das vítimas. Flores foram distribuídas aos familiares e os balões representando cada um deles foram soltos ao som da corneta, marcando e emocionando todos que estavam, em um abraço simbólico, de mãos dadas em torno do letreiro.

Entre as canções que emocionaram os familiares, estavam “Entrelinhas” e “Oração”, interpretadas por Laura e Sanrah, que se apresentaram juntos com o sanfoneiro Sérgio Saraiva. O cantor Rafael Librelon apresentou a música “Dói demais”, composta por ele e pela Rosinha, irmã da vítima Rogério.

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